Quando uma família descobre que o filho vai precisar de cirurgia de estrabismo, quase sempre a primeira preocupação não é a cirurgia em si. É a anestesia. “Ele vai dormir?”, “É seguro?”, “Quanto tempo vai demorar para acordar?”. Sentir medo nesse momento é natural. E informação de qualidade é uma das melhores formas de transformar esse medo em tranquilidade.
Neste texto, explico como funciona a anestesia na cirurgia de estrabismo infantil, o que acontece em cada etapa e como você pode preparar o seu pequeno para esse dia.
Por que a criança precisa de anestesia geral?
Nos adultos, a cirurgia de estrabismo costuma ser feita com anestesia local e sedação. Nas crianças, ela é feita com anestesia geral.
O motivo é simples: a cirurgia é delicada e exige que o paciente fique completamente imóvel. Para uma criança, ficar parada, acordada e colaborando durante um procedimento nos olhos não é possível, e nem seria justo pedir isso a ela. Com a anestesia geral, a criança dorme durante toda a cirurgia, não sente dor e não guarda lembranças desagradáveis do procedimento.
Quem cuida da anestesia?
A anestesia é feita e acompanhada, do início ao fim, por um médico anestesiologista, em centro cirúrgico hospitalar. Enquanto eu me dedico à cirurgia, ele se dedica exclusivamente ao seu filho: monitora continuamente os batimentos do coração, a respiração, a oxigenação e todos os sinais vitais.
A anestesia pediátrica evoluiu muito nas últimas décadas. Hoje, os medicamentos são modernos, de ação curta, e a monitorização é completa. Em crianças saudáveis, a anestesia geral é considerada um procedimento muito seguro.
Antes da cirurgia: a avaliação e o jejum
Antes do dia da cirurgia, a criança passa por uma avaliação para conferir sua saúde geral. O anestesiologista também conversa com a família sobre o histórico da criança: alergias, doenças, medicamentos em uso, cirurgias anteriores e se há alguém na família que já teve alguma reação à anestesia.
Um dos cuidados mais importantes é o jejum. Ele existe para proteger a criança durante a anestesia. Em geral, é necessário um jejum de:
- 8 horas para alimentos sólidos;
- 4 horas para líquidos claros, como água, chá ou água de coco.
Essas são as orientações mais comuns, mas os horários exatos são confirmados pela equipe para cada criança. Por isso, siga exatamente o que for orientado: nem mais curto, nem desnecessariamente mais longo.
Também é importante avisar a equipe se, nos dias anteriores, a criança tiver febre, gripe, tosse ou algum outro sintoma. Em alguns casos, pode ser mais seguro remarcar a cirurgia para quando ela estiver bem.
No dia da cirurgia
No dia da cirurgia, o anestesista vai chamar vocês e oferecer à criança um sedativo em forma de xaropinho, para que ela fique mais tranquila antes de ir para o centro cirúrgico.
Depois, eu e o anestesista entramos com o seu pequeno no centro cirúrgico, já sonolento. A anestesia começa por inalação: é um “cheirinho”, que a criança respira até adormecer. Só depois que ela já está dormindo é feito o acesso na veia, então ela não sente a picada.
A criança não é entubada. Utilizamos uma máscara laríngea, um dispositivo mais delicado que o tubo, que mantém a respiração segura durante todo o procedimento.
A cirurgia em si costuma durar menos de uma hora. Sempre que o caso permite, utilizo a técnica minimamente invasiva, com incisão via fórnice, que torna o pós-operatório ainda mais confortável.
O despertar e a volta para casa
Terminando o procedimento, eu chamo um dos pais para entrar no centro cirúrgico. Assim, a criança acorda ao lado de um rosto conhecido e recebe todo o carinho de que precisa nesse momento. Na maioria dos casos, não é usado tampão: a criança sai com os olhos abertos e enxergando.
É comum que, nas primeiras horas, ela fique sonolenta, um pouco chorosa ou agitada ao acordar. Algumas crianças podem ter enjoo. Esses efeitos costumam ser passageiros e são acompanhados de perto pela equipe.
A criança permanece algumas horas em observação e vai para casa no mesmo dia, sem necessidade de internação. Em geral, já no dia seguinte ela está bem mais disposta.
Como preparar o seu filho
- Converse com ele de forma simples e verdadeira, de acordo com a idade: ele vai “dormir um soninho especial” enquanto a médica arruma os olhinhos.
- Evite promessas que não poderão ser cumpridas, como dizer que ele não vai ao hospital.
- Leve um brinquedo, cobertor ou objeto de conforto de que ele goste.
- Siga à risca as orientações de jejum (em geral, 8 horas para sólidos e 4 horas para líquidos claros) e de medicamentos.
- Cuide também de você: as crianças percebem a nossa ansiedade. Tire todas as suas dúvidas antes, para chegar mais tranquilo ao dia da cirurgia.
Um passo importante para o futuro do seu filho
Sei que entregar o seu pequeno nas mãos de uma equipe cirúrgica é um dos momentos mais difíceis para qualquer mãe ou pai. Mas vale lembrar por que essa cirurgia é tão importante: o estrabismo não tratado pode atrapalhar o desenvolvimento da visão e afetar a autoestima e as relações sociais da criança.
Em menos de uma hora, é possível alinhar os olhos e oferecer ao seu filho a oportunidade de desenvolver a visão da melhor forma possível. E eu estarei com vocês em cada etapa, explicando tudo com calma, para que esse momento seja vivido com mais segurança.